domingo, 16 de janeiro de 2011

Churrascaria Pscicodélica II -- A Tal Ponto

Na graduação ele escrevera um artigo inflamado sobre a “cultura de massa e a tosca música irradiada no transporte coletivo de Goiânia”. Agora, mestre e doutor, quando algum aluno reescrevia o que ele escrevera, aquilo lhe soava panfletário.
Só um dado objetivo permanecia inalterado: ele continuava a andar de ônibus. E a ouvir a mesma música, tão batida, tão repisada.
“(...) Você não me ensinou a te esquecer / Você só me ensinou a te querer / E te querendo eu vou tentando te encontrar”.
Aqueles versos se fixaram no seu espírito. Não eram como os outros, que lhe colavam à cabeça por repetição, quase o fazendo cantarolar aquelas famigeradas músicas. “Você não me ensinou a te esquecer...” Não, isso Leandra não lhe ensinara. Tanto não lhe ensinara que agora até aqueles versos medíocres o faziam lembrar dela. “Você só me ensinou a te querer...” E ele aprendera. “E te querendo eu vou tentando te encontrar...”Ele encontrara! Nenhuns versos deram conta de sua história com Leandra como aqueles. Não era Drão, nem Eclipse Oculto, nem Eu te amo: era aquela música ouvida no rádio do ônibus, cantada por duas renitentes vozes cujos donos ele ignorava com orgulho. Queria ouvi-la uma, duas, três ou quantas vezes mais lhe bastassem para desopilar o peito.
Guardou os versos na memória como quem guarda uma relíquia. Já na faculdade, indagou ao google, não sem antes se certificar de que ninguém o observava:
“Você não me ensinou a te esquecer...” E obteve a ficha: de Fernando mendes / Lucas / Wilson, com Caetano Veloso. Se sentiu liberto.