quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Soneto à tua falta (ou à tua volta)

Falta que me faz tanta Que a volta é nunca Que a dor é muita Que o tempo espanta Volta que eu tanto sofro Que eu fico frágil Que se tua volta é o meu naufrágio Que com tua falta eu sofro em dobro Falta que é sem remédio Que dá saudade Que eu peço volta Volta que é o meu remédio Que é a só vontade Que traz tua falta

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Sem porto

Delirando, faço um verso
Recebo mensagens cifradas
De todos os lados do mundo
Tenho as mãos cheias de feridas
E me acoça um medo insano de morrer

Faz muito tempo que estou só
Se o constato (ou o confesso): não sei
Estou só como um general infante,
De cinco anos,
Que se perdeu da tropa,
Mas ninguém lhe ensinou a chorar

Tenho pressa
Mas sou como um navio expatriado:
Sem porto

Acompanho com aguda atenção todas as notícias –
Guerra no Panamá, hecatombe em Marrocos, incêndio na Amazônia –
Se eu estivesse lá...
Amanhã terei esquecido tudo
Guerra em Marrocos
Hecatombe na Amazônia
Incêndio no Panamá
Já passou

Tenho muita pressa!
-- Por favor, quando acaba
 -- O filme?
 -- Não, a vida.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Soneto de soslaio

Do insondável prazer de aprisionar beleza
Unido ao transe sonâmbulo da antemanhã
(Que não é calma embora)
Desejo meu ressuma

De, num passo errante da dança que adio,
Penetrar-lhe n’alma
Ou, quem sabe, desvãos
Para quê?

Suponho
Inspirar-lhe, ateu, um crédulo sorriso
Conhecer-lhe da face o rubor mais profano

Verter-lhe no céu minha chuva telúrica
arrebatar-lhe a ânima lúcida, inexpugnável
Instalá-la, de vez, na indústria do meu verso

sábado, 16 de julho de 2011

Casos & coisas

Fazer um poema carece de tanta vida
Que às vezes dá fadiga

Tem dias
Que a rima não fecha
A boca não abre
O papel não suporta

Ah, melhor a orgia
Antes o ócio
Do que esse negócio:
Viver de poesia

quinta-feira, 16 de junho de 2011

O Amor em Rota de Fuga

O sol fulge implacavelmente
Fosse noite ainda
Quem sabe tudo não se dissolvesse
É dia
(Clarividente)
E o amor venceu
Esgotado, trazendo as sobras da sofreguidão amanhecida,
Deseja ir embora, rapidamente.

O amor Pecado
Original, prendem-no as maçãs e a serpente
Às quais
(Se parte)
Retorna eternamente
Que bela figura faz o amor assim!

Não há camihnho
No “jardim de caminhos que se bifurcam”
O amor se perde
Perca-se logo o amor
Antes que amorteça
Antes que adormeça a velha carne
E a dor se ponha
E a dor mente

Tem sabença de pérfidas artes
Mutila, macera,
Pacientemente
Propõe pacto de morte
A dor ainda
E o amor, esquivo.

E o tempo
Anjo guardião da mais perversa
Neutralidade
Torna-se em aliado
(Ainda que no verso)
No vão combate à rima fácil
Amor e tempo
(A prazo)
Tempo e dor
(À vista)

segunda-feira, 7 de março de 2011

Questão de Gênero

Ontem de madrugada
Vi um Carajá surrando a mulher dele
E não fiz nada

Talvez porque machista,
Talvez por vocação multiculturalista,
Sei não. Amanhã vou perguntar à minha amiga
Tão antropóloga quanto feminista

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Amor Assim

Meu amor nasceu prematuro.
Tanto que se cogitou não resistisse ao parto
Ou vivesse, por acréscimo, uns diazinhos magros

Conheceu primeiras necessidades,
Prazeres do princípio,
Dores de nascer dentes
(E de perder o siso)
Quase ficou por lá

Meu amor soube das rebeldias do corpo e da alma
Perdeu-se, quase, de amores por si-mesmo
Naufragou no Mar Morto de tédio
Pisou descalço em terra firme
Que era só pedregulho

Meu amor sofreu saudade,
E gargalhou volúpia,
E bebeu, na taça absconsa,
Quando vinha,
Vinho de vermelha (e suculenta) uva

Meu amor costurou rancores
Ensaiou conduta típica
(Crime passional)
Planejou atentados
Kamikaze comida pra ninguém

Meu amor rosnou indiferença
Esquece, passa, tempo!
Amor embora, ir-se indo,
Dessa vez não deu.

“E assim, quando mais tarde me procure”

Meu amor divisou “amor a esmo”
Muito mais do mesmo
Que nem Prometeu

Meu amor sabe agora uma ternura
Uma alegria pura
De aprender continha de somar

Meu amor quer brisa, nave
Neve, coca-cola
E até um vulcãozinho
Que é pra incendiar

Meu amor é cantando na chuva
Jogo de boliche
Missa, carnaval

Meu amor brinca de esconde-
Esconde roupa
(-- Brincadeira boba!)
Vai brincar mais não?

Meu amor vontade ver bichinhos
Coelhinhos,
Patos,
Pica-paus,
Neném.

Meu amor, vem brincar de casinha
Bricabraques na sala,
Cocô no escritório,
Boletim da Bia
Conta pra pagar

Meu amor, pra sempre
Agora mesmo
Que é tempo de sobra
Que o tempo não sobra
E o infinito é ali

Meu amor, bailarina
Princesa, espelhos espalhados
Cama com dossel
Prefere luz acesa?
Eu te amo
Assim assim