segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Soneto de soslaio

Do insondável prazer de aprisionar beleza
Unido ao transe sonâmbulo da antemanhã
(Que não é calma embora)
Desejo meu ressuma

De, num passo errante da dança que adio,
Penetrar-lhe n’alma
Ou, quem sabe, desvãos
Para quê?

Suponho
Inspirar-lhe, ateu, um crédulo sorriso
Conhecer-lhe da face o rubor mais profano

Verter-lhe no céu minha chuva telúrica
arrebatar-lhe a ânima lúcida, inexpugnável
Instalá-la, de vez, na indústria do meu verso

sábado, 16 de julho de 2011

Casos & coisas

Fazer um poema carece de tanta vida
Que às vezes dá fadiga

Tem dias
Que a rima não fecha
A boca não abre
O papel não suporta

Ah, melhor a orgia
Antes o ócio
Do que esse negócio:
Viver de poesia

quinta-feira, 16 de junho de 2011

O Amor em Rota de Fuga

O sol fulge implacavelmente
Fosse noite ainda
Quem sabe tudo não se dissolvesse
É dia
(Clarividente)
E o amor venceu
Esgotado, trazendo as sobras da sofreguidão amanhecida,
Deseja ir embora, rapidamente.

O amor Pecado
Original, prendem-no as maçãs e a serpente
Às quais
(Se parte)
Retorna eternamente
Que bela figura faz o amor assim!

Não há camihnho
No “jardim de caminhos que se bifurcam”
O amor se perde
Perca-se logo o amor
Antes que amorteça
Antes que adormeça a velha carne
E a dor se ponha
E a dor mente

Tem sabença de pérfidas artes
Mutila, macera,
Pacientemente
Propõe pacto de morte
A dor ainda
E o amor, esquivo.

E o tempo
Anjo guardião da mais perversa
Neutralidade
Torna-se em aliado
(Ainda que no verso)
No vão combate à rima fácil
Amor e tempo
(A prazo)
Tempo e dor
(À vista)

segunda-feira, 7 de março de 2011

Questão de Gênero

Ontem de madrugada
Vi um Carajá surrando a mulher dele
E não fiz nada

Talvez porque machista,
Talvez por vocação multiculturalista,
Sei não. Amanhã vou perguntar à minha amiga
Tão antropóloga quanto feminista

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Amor Assim

Meu amor nasceu prematuro.
Tanto que se cogitou não resistisse ao parto
Ou vivesse, por acréscimo, uns diazinhos magros

Conheceu primeiras necessidades,
Prazeres do princípio,
Dores de nascer dentes
(E de perder o siso)
Quase ficou por lá

Meu amor soube das rebeldias do corpo e da alma
Perdeu-se, quase, de amores por si-mesmo
Naufragou no Mar Morto de tédio
Pisou descalço em terra firme
Que era só pedregulho

Meu amor sofreu saudade,
E gargalhou volúpia,
E bebeu, na taça absconsa,
Quando vinha,
Vinho de vermelha (e suculenta) uva

Meu amor costurou rancores
Ensaiou conduta típica
(Crime passional)
Planejou atentados
Kamikaze comida pra ninguém

Meu amor rosnou indiferença
Esquece, passa, tempo!
Amor embora, ir-se indo,
Dessa vez não deu.

“E assim, quando mais tarde me procure”

Meu amor divisou “amor a esmo”
Muito mais do mesmo
Que nem Prometeu

Meu amor sabe agora uma ternura
Uma alegria pura
De aprender continha de somar

Meu amor quer brisa, nave
Neve, coca-cola
E até um vulcãozinho
Que é pra incendiar

Meu amor é cantando na chuva
Jogo de boliche
Missa, carnaval

Meu amor brinca de esconde-
Esconde roupa
(-- Brincadeira boba!)
Vai brincar mais não?

Meu amor vontade ver bichinhos
Coelhinhos,
Patos,
Pica-paus,
Neném.

Meu amor, vem brincar de casinha
Bricabraques na sala,
Cocô no escritório,
Boletim da Bia
Conta pra pagar

Meu amor, pra sempre
Agora mesmo
Que é tempo de sobra
Que o tempo não sobra
E o infinito é ali

Meu amor, bailarina
Princesa, espelhos espalhados
Cama com dossel
Prefere luz acesa?
Eu te amo
Assim assim

domingo, 16 de janeiro de 2011

Churrascaria Pscicodélica II -- A Tal Ponto

Na graduação ele escrevera um artigo inflamado sobre a “cultura de massa e a tosca música irradiada no transporte coletivo de Goiânia”. Agora, mestre e doutor, quando algum aluno reescrevia o que ele escrevera, aquilo lhe soava panfletário.
Só um dado objetivo permanecia inalterado: ele continuava a andar de ônibus. E a ouvir a mesma música, tão batida, tão repisada.
“(...) Você não me ensinou a te esquecer / Você só me ensinou a te querer / E te querendo eu vou tentando te encontrar”.
Aqueles versos se fixaram no seu espírito. Não eram como os outros, que lhe colavam à cabeça por repetição, quase o fazendo cantarolar aquelas famigeradas músicas. “Você não me ensinou a te esquecer...” Não, isso Leandra não lhe ensinara. Tanto não lhe ensinara que agora até aqueles versos medíocres o faziam lembrar dela. “Você só me ensinou a te querer...” E ele aprendera. “E te querendo eu vou tentando te encontrar...”Ele encontrara! Nenhuns versos deram conta de sua história com Leandra como aqueles. Não era Drão, nem Eclipse Oculto, nem Eu te amo: era aquela música ouvida no rádio do ônibus, cantada por duas renitentes vozes cujos donos ele ignorava com orgulho. Queria ouvi-la uma, duas, três ou quantas vezes mais lhe bastassem para desopilar o peito.
Guardou os versos na memória como quem guarda uma relíquia. Já na faculdade, indagou ao google, não sem antes se certificar de que ninguém o observava:
“Você não me ensinou a te esquecer...” E obteve a ficha: de Fernando mendes / Lucas / Wilson, com Caetano Veloso. Se sentiu liberto.