quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Beleza Posta

Brinca no singelo
Mata o tempo
De aprender a ler
Baudelaire
Como quem vai às compras

É que sabe bem, parece,
Que o intangível não adianta nada
(Amanhã pode faltar pão ou água, por exemplo)
Mas que, sem ele, O que se há de fazer?

Daí desconfiar de tudo
(“Mas tudo é nada”)

Do desejo e da China
Da beleza e do transporte público, principalmente

E por não crer em coisas tão díspares e razoáveis
Como o despertador e a física quântica,
Só se deixa ver de esguelha
E uma parte e uma vez somente.

Para tanto herdou o ardil
De Ana Bolena e Sherazade:
Nega-se, sem se furtar a uma oblíqua contemplação

Um viu-lhe a porção materna
Chorou por colo e comida
Morreu de inanição, malgrado a psicanálise

Outro conheceu-lhe a vaga do desejo
Curtida em farsesca mansidão
Vende suspiros na esquina, para moços, moças e afins

Terceiro espiou-lhe os gestos
Propôs-lhe uma dança e ouviu um tratado sobre Helen Keller
Se matou na semana seguinte

Ela guarda esses e outros recortes de jornal
Mas sabe que o melhor está nos livros

Cultiva, pois,
O discreto hábito de aliciar poetas

Procedimento padrão:
Elege o bardo
Sugere, cogita, insinua
Obnubila-lhe a vista de qualquer parte sua

Cortesia dá em distanciamento
Gravidade, em alumbramento

Como se contrafeita, posa para o poema
Impõe-lhe os movimentos, perscruta-lhe o tema

-- Haja simetria --, ordena
-- Falta inteireza --, o vate objeta
-- Onde a radiação? --, a musa provoca

E silencia, e some.
O poeta é agora, além de só, impasse

Ou restaura a musa a partir da não-forma
Ou desvela- lhe a toda beleza insculpida na parte

(AA)

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