terça-feira, 21 de setembro de 2010

Casos & Coisas

Fazer um poema carece de tanta vida
Que às vezes dá fadiga

Tem dias
Que a rima não fecha
A boca não abre
O papel não suporta

Ah, melhor a orgia
Antes o ócio
Do que esse negócio:
Viver de poesia

(AA)

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Sob o Último Signo

Entre o Amor e a Beleza
Procuro o caminho do meio

Mergulho fundo
Nas águas para onde fugiram

Por inencontráveis, etéreos,
Alcanço apenas vestígios de sua passagem
(O que em si já ilumina e embevece)

Do amor, certa calma que arrefece o ímpeto
E certo ímpeto que acalma o mundo

Da beleza, certo viço para além da forma
E certas formas que apaziguam o vício

Em ambos, uma intuição silenciosa
Que submete o verbo ao gesto,
A imagem à presença,
O desejo à contemplação.

O mais é mistério e entendimento
E a sina de recolher tristezas
(O que talvez me livre de ser triste)

(AA)

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Passe pra Pasárgada

Surgiu pronta para noiva
Ou no próximo minuto evanescente
(A depender de como se escala o muro)

Bela, altiva, alta
Sempre a dar um passo Em direção à vida
E, pior, com um verso na mão:
“Vou-me embora pra Pasárgada”

Capaz de cálculos insólitos
(minhas horas de boemia por semana)
E de conselhos que, havendo futuro, virarão prescrições
(-- Evite os empréstimos)

Exala “o impossível perfume” que denuncia
A cruel maravilha contida “no fundo de si mesma”

“Terei a mulher que eu quero”?

(AA)

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Soneto à tua Falta ou à tua Volta

Falta que me faz tanta
Que a volta é nunca
Que a dor é muita
Que o tempo espanta

Volta que eu tanto sofro
Que eu fico frágil
Que se tua volta é o meu naufrágio
Que com tua falta eu sofro em dobro

Falta que é sem remédio
Que dá saudade
Que eu peço volta

Volta que é o meu remédio
Que é a só vontade
Que traz tua falta

(AA)

sábado, 11 de setembro de 2010

À Rapariga dos Olhos Ansiosos

Vamos, rapariga,
Sigamos juntos.

Corações inquietos,
Sonhos ligeiramente despedaçados.
Sigamos juntos.

Desconfiamos da esperança,
Sabemos violentamente que o amor não se resolve
Mas cremos tanto naquele pássaro que talvez ele finja um milagre

Então poderemos remendar o amor
E empalhar a esperança
E até exibir alguns sonhos, desde que viáveis

Mas sigamos juntos.
De mãos dadas, apenas
Não mais que isso

Que a carne macerando a carne
(Sofregamente o sabemos!)
às vezes decompõe a paisagem,
Quando não desfaz o mundo

Sigamos juntos, rapariga.
Bosque afora.
Dizem que há uma cidade a se construir
E é por lá que nos perderemos.

(AA)

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Perdi o Norte

Amigo, perdi o norte.
Mas que te importa?
Napoleão perdeu Waterlou,
Camões perdeu um olho,
João Batista perdeu a cabeça
(Por Salomé eu também teria perdido, mas a outra)

E eu? Eu só
Perdi o norte
É pouco?
É nada?
É quase perder o cu

Mas o que me distingue de Camões, de Napoleão e do precursor
É que perdi o norte
(Com gelo, por favor)
Mas não encontrei o sul

(AA)

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Soneto Resignado

Cenário triste qual o fim de Tristão
Esse do amor que não se realiza
Não dá ao corpo o que a alma divisa
Nem se resolve na contemplação

Tristes dos olhos que a beleza fere
Que os tenho opacos e ainda assim o sei
O olor e o horror que a beleza sugere
Evocam o retrato de Dorian Gray

Mas se a renúncia ao amor e à beleza
For a sozinha solução possível
À grande dor que rencide em meu peito

Vou do fulgor do encanto à gris tristeza
Cerzindo com este amor belo e terrível
Os lanhos que dão azo ao meu soneto

(AA)

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Beleza Posta

Brinca no singelo
Mata o tempo
De aprender a ler
Baudelaire
Como quem vai às compras

É que sabe bem, parece,
Que o intangível não adianta nada
(Amanhã pode faltar pão ou água, por exemplo)
Mas que, sem ele, O que se há de fazer?

Daí desconfiar de tudo
(“Mas tudo é nada”)

Do desejo e da China
Da beleza e do transporte público, principalmente

E por não crer em coisas tão díspares e razoáveis
Como o despertador e a física quântica,
Só se deixa ver de esguelha
E uma parte e uma vez somente.

Para tanto herdou o ardil
De Ana Bolena e Sherazade:
Nega-se, sem se furtar a uma oblíqua contemplação

Um viu-lhe a porção materna
Chorou por colo e comida
Morreu de inanição, malgrado a psicanálise

Outro conheceu-lhe a vaga do desejo
Curtida em farsesca mansidão
Vende suspiros na esquina, para moços, moças e afins

Terceiro espiou-lhe os gestos
Propôs-lhe uma dança e ouviu um tratado sobre Helen Keller
Se matou na semana seguinte

Ela guarda esses e outros recortes de jornal
Mas sabe que o melhor está nos livros

Cultiva, pois,
O discreto hábito de aliciar poetas

Procedimento padrão:
Elege o bardo
Sugere, cogita, insinua
Obnubila-lhe a vista de qualquer parte sua

Cortesia dá em distanciamento
Gravidade, em alumbramento

Como se contrafeita, posa para o poema
Impõe-lhe os movimentos, perscruta-lhe o tema

-- Haja simetria --, ordena
-- Falta inteireza --, o vate objeta
-- Onde a radiação? --, a musa provoca

E silencia, e some.
O poeta é agora, além de só, impasse

Ou restaura a musa a partir da não-forma
Ou desvela- lhe a toda beleza insculpida na parte

(AA)