terça-feira, 17 de agosto de 2010

Serra e Eu (À minha amiga Tihaná Hirata, tucana, mas muuuuuuito menos serrista do que eu.)

Já virou clichê a afirmação de que nestas eleições temos à disposição os candidatos mais preparados pra governar o Brasil. O curioso é que, nunca antes da história deste país, se viram eleições presidenciais mais insossas. Mesmo eleitores convictos de um(a) dos(as) três mosqueteiros(as) não andam por aí dizendo: "o meu é o mais preparado!". Tampouco alguém pede recibo.
Pra mim, o mais preparado é o Serra. Não que eu vá votar nele, porque, dentre outras razões, se o trio é preparado, esse critério não é decisivo. Mas que sou fã do Serra, isso sou. E, como você vai ver, por razões não muito republicanas.
O rapaz é notívago, boêmio, tem uma cara de membro de algum cenáculo ou confraria sobrevivente do século 19, e nosso poeta preferido (sim, Serra e eu gostamos do mesmo poeta!) é o Álvaro de Campos, que nunca existiu.
Álvaro de Campos é o mais cáustico e moderno dos heterônimos de Fernando Pessoa. Consta que era engenheiro e viveu em Lisboa, desempregado. Foi um daqueles elegantes fracassados que os europeus tão bem sabem retratar.
Quando o Serra esteve em Goiânia, quis convidá-lo a organizarmos um sarau só com poemas de Álvaro de Campos. Depois desisti, com medo de atrapalhar a eleição do meu preparado. Abaixo, entenda o por quê.

Poema em linha reta

Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)



Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.


E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,


Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?


Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

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