sábado, 4 de dezembro de 2010

Churrascaria Psicodélica

Foi de Zeca Baleiro que tomei emprestado, e sem intenção de devolver, o título deste post, que prometo transformar em seção. (Mas sem muita intenção de cumprir.)
Churrascaria Psicodélica é o nome que o menestréu maranhense pretende dar a um disco, tão prometido quanto promissor, que reunirá o cancioneiro brega, dele e de domínio público.
Amado Batista, Odair José, Fernando Mendes... Baleiro pretende interpretar esses e outros cânones que as rádios AM lhe possibilitaram fruir na infância, os quais, segundo ele, tanto influenciaram sua música.
Pós-moderno? Sim, ma non tropo. Outros arautos bem mais ortodoxos da Música Popular Brasileira já flertaram (e andam flertando) com um gênero que, à falta de sinônimo na cartilha do politicamente correto, se convencionou chamar de brega.
O propósito desta Churrascaria é, a pretexto de protestar contra essa saúva de nossa música, curtir uma dor sem-vergonha, uma fossa sem graça ou uma traição sem costume. Tudo isso ao som dessa macunaímica mistura entre o sofisticado e o cafona, a erudição e a erosão, o sublime e o sacana.
Sem muita conversa, vamos ouvir, com Chico Buarque & Zezé di Camargo & Luciano, “Minha História”. Tentamos apurar detalhes da gravação, mas Chico disse apenas que a música não é dele, mas uma versão que fez de “Gesù Bambino”, de Lucio Dalla e Paola Palotino.
Os sertanejos preferidos de Lula nada declararam, mas é consenso na imprensa de celebridades e no fofocal da intelectualidade que Vanessa Camargo entrou no negócio. Tentamos ouvir a moça por telefone, mas o marido disse que ela havia saído. O celular de Chico, que não revelamos a ninguém, deu na secretária.


segunda-feira, 22 de novembro de 2010

O Futuro da AGEPEL

A AGEPEL (Agência Goiana de Cultura Pedro Ludovico Teixeira) foi criada em 1999, ano I do primeiro governo de Marconi Perillo. Sucedeu a Fundação cultural que também homenageava o governador-cavaleiro. Seu primeiro presidente foi o historiador Nasr (pronuncia-se Násser) Chaul, que sucedeu Linda Monteiro.
Chaul criou o FICA, o TEMPO, o Canto da Primavera, pôs a máquina da AGEPEL pra funcionar regularmente (em mais de um sentido) e repôs a cultura (como política de governo) no dia a dia dos goianos.
Mas sofreu, principalmente no segundo governo Marconi, com o contingenciamento orçamentário e com o fim da moda das agências executivas, da qual a AGEPEL é uma das poucas sobreviventes, que alardeara uma autonomia de receita jamais alcançada.
Já no governo Alcides, Chaul foi defenestrado da pasta, deixando para trás o cronicamente inconcluso Centro Cultural Oscar Niemeyer. Foi sucedido por Linda Monteiro, ela mesma, que manteve por inércia as ações do antecessor, e nada mais.
Passadas as eleições, a hora agora é das definições de quem assume o quê. Para a AGEPEL estão cotados, segundo os jornais, Chaul e Gilvane Felipe. Gilvane, como Chaul, é historiador e vem da academia. Foi Secretário de Ciência e Tecnologia no primeiro governo Marconi e superintendente do SEBRAE no segundo.
Marconi tem dito que seu próximo governo será diferente dos anteriores. Na prática, corre à boca miúda que o governador eleito não quer ninguém repetindo os postos anteriormente ocupados. Exceto ele, por óbvio.
A ser verdade, a balança da cultura pende para Gilvane.
No próximo post, a política dará lugar à gestão. Quais os desafios do futuro Secretário de Cultura do Estado de Goiás? Sim, porque a AGEPEL não tem futuro. Já deu no que tinha de dar. E também porque a cultura não precisa de agência, mas de política cultural, que por sua vez precisa de uma secretaria que a efetive. Além do vil metal.

(AA)

terça-feira, 19 de outubro de 2010

ROTEIRO

Horas de encantamento e contemplação
Eu, metódico e inconseqüente como um cineasta,
Quis saber o que faria daquilo depois

Ela, lúcida e incoerente como as atrizes de outrora,
Puxou-me pelo braço e me disse (em segredo): -- Sempre haverá depois.
E conduziu a cena

Me deu pistas,
me deu asas,
me deu bonde...

E para recompor o desejo,
Repô-lo em lugar fora do alcance,

Deu-me um abraço em que o corpo era tanto,
A alma era toda,
Mas ambos impossíveis
(Eu soube sem nem precisar haver depois)

“E passou o tempo e o vento levou”

Resta-me na alma um perfume para sempre fixado,
A memória de um rosto, leve e diminuto, na minha mão esquerda,
E lapsos do corpo -- um seio num relance

Resta a delicadeza de uma bailarina,
A sedução de uma noviça gueixa,
E uma dignidade de rainha

E resta um encantamento novo e dissoluto
E uma esperança tão ingênua e deslocada
Como supor final feliz no cinema europeu.

(AA)

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Taiguara

Taiguara evoca minha utopia particular. Em pleno 1995, com 13, 14 anos, eu ouvia aquela música melancólica, com letras engajadas, líricas, simples, belas.
Anacrônico. Foi como me definiu um amigo por eu gostar de Taiguara. Ele também gostava. Mas tinha 30 anos, não 13.
"Hoje" ´´é a música postada aqui. Ao vivo, do teatro João Caetano.
Hoje, Taiguara soa anacrônico. Mas pertence a um Brasil delicado que deve existir em algum lugar, ainda que em lugar nenhum.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Casos & Coisas

Fazer um poema carece de tanta vida
Que às vezes dá fadiga

Tem dias
Que a rima não fecha
A boca não abre
O papel não suporta

Ah, melhor a orgia
Antes o ócio
Do que esse negócio:
Viver de poesia

(AA)

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Sob o Último Signo

Entre o Amor e a Beleza
Procuro o caminho do meio

Mergulho fundo
Nas águas para onde fugiram

Por inencontráveis, etéreos,
Alcanço apenas vestígios de sua passagem
(O que em si já ilumina e embevece)

Do amor, certa calma que arrefece o ímpeto
E certo ímpeto que acalma o mundo

Da beleza, certo viço para além da forma
E certas formas que apaziguam o vício

Em ambos, uma intuição silenciosa
Que submete o verbo ao gesto,
A imagem à presença,
O desejo à contemplação.

O mais é mistério e entendimento
E a sina de recolher tristezas
(O que talvez me livre de ser triste)

(AA)

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Passe pra Pasárgada

Surgiu pronta para noiva
Ou no próximo minuto evanescente
(A depender de como se escala o muro)

Bela, altiva, alta
Sempre a dar um passo Em direção à vida
E, pior, com um verso na mão:
“Vou-me embora pra Pasárgada”

Capaz de cálculos insólitos
(minhas horas de boemia por semana)
E de conselhos que, havendo futuro, virarão prescrições
(-- Evite os empréstimos)

Exala “o impossível perfume” que denuncia
A cruel maravilha contida “no fundo de si mesma”

“Terei a mulher que eu quero”?

(AA)

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Soneto à tua Falta ou à tua Volta

Falta que me faz tanta
Que a volta é nunca
Que a dor é muita
Que o tempo espanta

Volta que eu tanto sofro
Que eu fico frágil
Que se tua volta é o meu naufrágio
Que com tua falta eu sofro em dobro

Falta que é sem remédio
Que dá saudade
Que eu peço volta

Volta que é o meu remédio
Que é a só vontade
Que traz tua falta

(AA)

sábado, 11 de setembro de 2010

À Rapariga dos Olhos Ansiosos

Vamos, rapariga,
Sigamos juntos.

Corações inquietos,
Sonhos ligeiramente despedaçados.
Sigamos juntos.

Desconfiamos da esperança,
Sabemos violentamente que o amor não se resolve
Mas cremos tanto naquele pássaro que talvez ele finja um milagre

Então poderemos remendar o amor
E empalhar a esperança
E até exibir alguns sonhos, desde que viáveis

Mas sigamos juntos.
De mãos dadas, apenas
Não mais que isso

Que a carne macerando a carne
(Sofregamente o sabemos!)
às vezes decompõe a paisagem,
Quando não desfaz o mundo

Sigamos juntos, rapariga.
Bosque afora.
Dizem que há uma cidade a se construir
E é por lá que nos perderemos.

(AA)

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Perdi o Norte

Amigo, perdi o norte.
Mas que te importa?
Napoleão perdeu Waterlou,
Camões perdeu um olho,
João Batista perdeu a cabeça
(Por Salomé eu também teria perdido, mas a outra)

E eu? Eu só
Perdi o norte
É pouco?
É nada?
É quase perder o cu

Mas o que me distingue de Camões, de Napoleão e do precursor
É que perdi o norte
(Com gelo, por favor)
Mas não encontrei o sul

(AA)

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Soneto Resignado

Cenário triste qual o fim de Tristão
Esse do amor que não se realiza
Não dá ao corpo o que a alma divisa
Nem se resolve na contemplação

Tristes dos olhos que a beleza fere
Que os tenho opacos e ainda assim o sei
O olor e o horror que a beleza sugere
Evocam o retrato de Dorian Gray

Mas se a renúncia ao amor e à beleza
For a sozinha solução possível
À grande dor que rencide em meu peito

Vou do fulgor do encanto à gris tristeza
Cerzindo com este amor belo e terrível
Os lanhos que dão azo ao meu soneto

(AA)

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Beleza Posta

Brinca no singelo
Mata o tempo
De aprender a ler
Baudelaire
Como quem vai às compras

É que sabe bem, parece,
Que o intangível não adianta nada
(Amanhã pode faltar pão ou água, por exemplo)
Mas que, sem ele, O que se há de fazer?

Daí desconfiar de tudo
(“Mas tudo é nada”)

Do desejo e da China
Da beleza e do transporte público, principalmente

E por não crer em coisas tão díspares e razoáveis
Como o despertador e a física quântica,
Só se deixa ver de esguelha
E uma parte e uma vez somente.

Para tanto herdou o ardil
De Ana Bolena e Sherazade:
Nega-se, sem se furtar a uma oblíqua contemplação

Um viu-lhe a porção materna
Chorou por colo e comida
Morreu de inanição, malgrado a psicanálise

Outro conheceu-lhe a vaga do desejo
Curtida em farsesca mansidão
Vende suspiros na esquina, para moços, moças e afins

Terceiro espiou-lhe os gestos
Propôs-lhe uma dança e ouviu um tratado sobre Helen Keller
Se matou na semana seguinte

Ela guarda esses e outros recortes de jornal
Mas sabe que o melhor está nos livros

Cultiva, pois,
O discreto hábito de aliciar poetas

Procedimento padrão:
Elege o bardo
Sugere, cogita, insinua
Obnubila-lhe a vista de qualquer parte sua

Cortesia dá em distanciamento
Gravidade, em alumbramento

Como se contrafeita, posa para o poema
Impõe-lhe os movimentos, perscruta-lhe o tema

-- Haja simetria --, ordena
-- Falta inteireza --, o vate objeta
-- Onde a radiação? --, a musa provoca

E silencia, e some.
O poeta é agora, além de só, impasse

Ou restaura a musa a partir da não-forma
Ou desvela- lhe a toda beleza insculpida na parte

(AA)

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Ramerrame Amoroso

Da vastíssima crônica dos amores perdidos
(Alheia e própria)
Aprendo que,
Pior que não ter um amor,
Que o esquecer
Ou vê-lo partir,
É perder a hora de desistir

(AA)

domingo, 22 de agosto de 2010

Poema para uma música

Sou mais um fascinado pelas músicas do Chico. Tanto que, sempre que dá, arranjo um jeito de pôr alguma delas na minha vida. Por exemplo, já inventei e perdi grandes amores só pra ter "Eu te Amo" como trilha. E porcausa de "Futuros Amantes" passei a considerar a possibilidade da reencarnação.
Mas o caso mais abusado se deu com "Lua Cheia", do Chico com o Toquinho. Eu terminara um namoro e não sabia o que fazer, além de bisar a música. Roubei uns versos do Chico e fiz um poema.
Abaixo, leia o poema e ouça a música.

DEPOIS DA FESTA

Perder um amor assim, silenciosamente,
É como dar uma festa e esperar, no dia seguinte,
Pelas impressões do convidado que não veio

E nem cai bem ligar para o convidado,
Amolar o convidado, flagelar o convidado:
O melhor é acusar a desfeita, e em silêncio

Deu-se uma festa e o convidado
(De quem eram esperadas impressões)
Não veio.
Não quis.

Como de resto o amor perdido
Não convém chateá-lo, conflagrá-lo, imolá-lo
O melhor é acusar a perda, cantando:
“Preparei para você uma lua cheia
E você não veio
E você não quis”.
Eis um tenro amor esmigalhado.


terça-feira, 17 de agosto de 2010

Serra e Eu (À minha amiga Tihaná Hirata, tucana, mas muuuuuuito menos serrista do que eu.)

Já virou clichê a afirmação de que nestas eleições temos à disposição os candidatos mais preparados pra governar o Brasil. O curioso é que, nunca antes da história deste país, se viram eleições presidenciais mais insossas. Mesmo eleitores convictos de um(a) dos(as) três mosqueteiros(as) não andam por aí dizendo: "o meu é o mais preparado!". Tampouco alguém pede recibo.
Pra mim, o mais preparado é o Serra. Não que eu vá votar nele, porque, dentre outras razões, se o trio é preparado, esse critério não é decisivo. Mas que sou fã do Serra, isso sou. E, como você vai ver, por razões não muito republicanas.
O rapaz é notívago, boêmio, tem uma cara de membro de algum cenáculo ou confraria sobrevivente do século 19, e nosso poeta preferido (sim, Serra e eu gostamos do mesmo poeta!) é o Álvaro de Campos, que nunca existiu.
Álvaro de Campos é o mais cáustico e moderno dos heterônimos de Fernando Pessoa. Consta que era engenheiro e viveu em Lisboa, desempregado. Foi um daqueles elegantes fracassados que os europeus tão bem sabem retratar.
Quando o Serra esteve em Goiânia, quis convidá-lo a organizarmos um sarau só com poemas de Álvaro de Campos. Depois desisti, com medo de atrapalhar a eleição do meu preparado. Abaixo, entenda o por quê.

Poema em linha reta

Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)



Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.


E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,


Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?


Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Esperando

Meu amigo tem umas esperanças esquisitas
(De que eu, por exemplo, por milagre, enxergue)

Talvez por isso inventou uma mulher
Que eu espero e virá,
com a gravidade de quem leu uma tragédia
Mas com o viço das namoradas de colégio

Virá dividir melancolia
(Só terei meia tristeza!)

E abrir-me nossos sorrisos espantados da alegria
E me dar umas madrugadas solenes, aliás, todas
E até umas aulinhas de finanças e cosmética

Ah! E inventar-me uns esportes radicais
(Escaladas, escaladas)
E umas crianças bem moderadinhas
Com plano de saúde, colônia de férias e duas avós

Há-de me persuadir, não repetir-se
Há-de me deixar, sem abandono

A mulher que meu amigo diz que eu espero
(Acho que passou por mim um dia desses)

(AA)

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Uma Grande, Doce Voz

Pra mim a Bossa Nova (com maiúscula e tudo) foi um dos grandes acontecimentos da humanidade. E seus membros de ouvidos mais atentos parecem concordar com isso, porque o violão de João Gilberto, a música de Tom e as letras de Vinicius ecoam discretamente até em novela das 8. Dia desses me caiu à mão um verdadeiro inventário do surgimento da Bossa Nova: o livro "Chega de Saudade", de Ruy Castro, o biógrafo de Nelson Rodrigues.
Tenho um fascínio por figuras marginais de grandes movimentos, sobretudo se mulheres. Isso ajuda a explicar por que, durante a leitura, fui me encantando por uma tal Sylvia Telles. Sim, eu já ouvira falar de "Sylvinha" Telles, mas não fazia a menor ideia de seu tamanho. A moça namorou João Gilberto quando o baiano nem pensava em inventar o gênero dissonante. Casou e descasou (não com João nem com a Bossa), cantou e viveu desbragadamente apenas 36 anos. Fui atrás da moça.
Se a Bossa Nova é marcada por "vozes pequenas", como a de Nara Leão ou a do próprio João Gilberto, ou Sylvinha não marcou a Bossa ou a Bossa não marcou Sylvia Telles. Sua voz tem o inconfundível sotaque das cantoras de bolero, mas é temperada por uma doçura só aprendida na... Bossa Nova.
Sim, com sua grande voz, Sylvinha Telles marcou a Bossa Nova. E sua grande voz foi docemente marcada pelo compasso dissonante de João Gilberto.

sábado, 7 de agosto de 2010

O Dia da Criação

Bem ao estilo de seu autor, o primeiro post deste Cara Cultura era pra ser um artigo, um manifesto ou uma tese que lhe desse um conceito, que revelasse seus propósitos ou que demarcasse seu ínfimo território. Aí me lembrei, já na primeira pessoa, que hoje é sábado. Macunaímico, resolvi abrir os trabalhos com um autoexplicativo poema de Vinicius.
Foi assim que o "poeta e diplomata" Vinicius de Morais, "o branco mais preto do Brasil", alforriou o improvável leitor deste blog de um artigo, de um manifesto ou de uma tese que... Mas só "porque hoje é sábado.

O dia da criação



Macho e fêmea os criou.
Gênese, 1, 27






I



Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na cruz para nos salvar.



Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.


Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.



Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.





II



Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado
Hoje há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado
Há um rico que se mata
Porque hoje é sábado
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado
Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado
Há um grande espírito-de-porco
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado
Há criançinhas que não comem
Porque hoje é sábado
Há um piquenique de políticos
Porque hoje é sábado
Há um grande acréscimo de sífilis
Porque hoje é sábado
Há um ariano e uma mulata
Porque hoje é sábado
Há uma tensão inusitada
Porque hoje é sábado
Há adolescências seminuas
Porque hoje é sábado
Há um vampiro pelas ruas
Porque hoje é sábado
Há um grande aumento no consumo
Porque hoje é sábado
Há um noivo louco de ciúmes
Porque hoje é sábado
Há um garden-party na cadeia
Porque hoje é sábado
Há uma impassível lua cheia
Porque hoje é sábado
Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado
Umas difíceis, outras fáceis
Porque hoje é sábado
Há um beber e um dar sem conta
Porque hoje é sábado
Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado
Há um padre passeando à paisana
Porque hoje é sábado
Há um frenesi de dar banana
Porque hoje é sábado
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado
De uma mulher dentro de um homem
Porque hoje é sábado
Há uma comemoração fantástica
Porque hoje é sábado
Da primeira cirurgia plástica
Porque hoje é sábado
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado





III



Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens,
ó Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário
Nem tu, mulher, ser vegetal, dona do abismo, que queres como
as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas
em queda invisível na
terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda
e missa de
sétimo dia.
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das
águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em [cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e [sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.